Balotelli é oferecido a clubes brasileiros por Franck Assunção, ex-diretor do Vasco.

Balotelli foi oferecido a clubes brasileiros por Franck Assunção, ex-diretor do Vasco, em busca de uma nova oportunidade no futebol nacional.

Em dezembro, antes da eliminação do Fluminense para o Vasco na semifinal da Copa do Brasil, o presidente do clube, Mário Bittencourt, recebeu uma mensagem de um homem que se apresentou como intermediário do atacante Balotelli, ex-seleção italiana. O contato foi feito por Franck de Sá Assunção, um diretor do Botafogo de Cristinápolis-SE, que ofereceu o jogador de 35 anos a equipes brasileiras, incluindo o Fluminense.

Franck Assunção, que possui uma trajetória controversa no futebol, não é registrado na Fifa e não está na lista de intermediários da CBF. Ele já foi preso duas vezes por porte ilegal de arma, o que gerou desconfiança entre os clubes. Apesar de insistir na proposta e tentar divulgar a oferta, o Fluminense não demonstrou interesse na contratação de Balotelli, que acabou acertando com o Al Ittifaq, dos Emirados Árabes, após deixar o Genoa em julho.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O Fluminense não abriu negociações, considerando a abordagem de Assunção como uma tentativa de “cavada”. Enquanto isso, ele continuava suas atividades no Botafogo sergipano, onde ocupa o cargo de diretor-executivo desde maio de 2025, embora seu perfil nas redes sociais se assemelhe mais a um perfil pessoal, com registros de viagens e encontros com figuras do futebol.

O material apresentado por Assunção para se promover inclui um álbum de fotos ao lado de personalidades do futebol, mas sua credibilidade é questionada. Zico, um dos nomes mencionados, negou qualquer relação comercial com ele.

Franck Assunção foi preso em 2021 por ameaçar um motorista com uma arma, e em 2023, foi novamente detido por porte ilegal de arma durante uma perseguição na Via Dutra. Ele enfrenta condenações e aguarda o trânsito em julgado de sua pena.

Briga e uso de arma de fogo contra um motorista

Franck de Sá Assunção foi preso duas vezes em flagrante por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. No ano passado, ele se livrou de uma das condenações pagando uma multa de R$ 4.942. Mas, em setembro, foi condenado a quatro anos de reclusão pelo outro crime e corre o risco de voltar à cadeia nos próximos meses.

No dia 19 de março de 2021, Franck solicitou uma corrida por aplicativo em Campinas (SP). O motorista contou à polícia que, quando chegaram ao destino, o dirigente exigiu que ele seguisse viagem e o levasse a um local perigoso da cidade. E que, diante da recusa, Franck proferiu ameaças, o agrediu com um soco no rosto, sacou um revólver e chegou a tentar disparar, mas a arma falhou.

Ainda de acordo com o depoimento do motorista à Justiça, Franck desembarcou do veículo, pegou outra arma e efetuou mais dois disparos na direção do carro. Nesse momento, o motorista teria acelerado o veículo, saído em alta velocidade e acionado a polícia.

Na prisão em flagrante, a polícia encontrou com Franck duas pistolas, uma calibre .38 e outra calibre .22. Em uma delas, a perícia constatou vestígios produzidos por disparo recente. Além disso, foram apreendidos munições, um martelo, fitas de nylon usadas para amarras e duas máscaras de fantasia de terror.

Uma das armas apreendidas com Franck Assunção na prisão em flagrante em 2021 — Foto: geUma das armas apreendidas com Franck Assunção na prisão em flagrante em 2021 — Foto: ge

Material apreendido junto a Franck Assunção na prisão em 2011 — Foto: Polícia Militar de CampinasMaterial apreendido junto a Franck Assunção na prisão em 2011 — Foto: Polícia Militar de Campinas

Franck Assunção foi solto no dia seguinte, na audiência de custódia. A juíza na ocasião levou em consideração o fato de não haver precedentes criminais e entendeu que ele não representava perigo, uma vez que as armas haviam sido apreendidas.

Em dezembro de 2022, Franck foi condenado a três anos e seis meses (ou 1.260 horas) de prestação de serviços comunitários, com interdição temporária de direitos (foi proibido de frequentar bares, boates e casas de prostituição). A juíza também determinou o pagamento de pena pecuniária no valor de R$ 733,33.

Trecho da ficha de relatório de vida pregressa de Franck Assunção na polícia — Foto: geTrecho da ficha de relatório de vida pregressa de Franck Assunção na polícia — Foto: ge

Até outubro de 2024, no entanto, Franck não havia prestado uma hora sequer de serviços comunitários. Sua defesa alegou que as seguidas viagens inerentes à profissão de agente de futebol o impossibilitavam e solicitou a conversão da pena para multa pecuniária. O Ministério Público de São Paulo foi contra, mas a Justiça por fim aceitou o pedido.

Franck Assunção quitou sua dívida com a Justiça por esse caso em específico com o pagamento de R$ 4.942, em parcelas de R$ 1.647,33 pagas em janeiro, em março e em maio do ano passado.

Nesse processo, consta uma Declaração de Boa Conduta assinada por João Paulo Magalhães Lins, que na ocasião era o gestor do Boavista, de Saquarema. Franck era gerente executivo do clube quando foi preso, com salário de quase R$ 15 mil, de acordo com um contracheque juntado nos autos. O atual presidente do Botafogo atestou no documento assinado no dia seguinte à prisão que Franck era “profissional, idôneo, correto, competente, responsável e com renomada atuação na área esportiva”.

Relembre: em 2011, Vieri se encantou com o Rio de Janeiro e tinha chances de jogar no Boavista

No Boavista, Franck é apontado como um dos responsáveis por ter intermediado a vinda de Vieri ao Brasil em 2011 (os dois aparecem conversando ao fundo no vídeo acima). O ex-atacante da seleção italiana morou por alguns meses no Copacabana Palace e tinha um acordo encaminhado para defender o clube no Carioca do ano seguinte, mas precisou deixar o país por problemas pessoais e nunca chegou a vestir a camisa da equipe.

Ameaça e tentativa de fuga na Dutra

No dia 14 de outubro de 2023, outra prisão em flagrante. Dessa vez na Via Dutra, na altura do município de Piraí, no Rio de Janeiro.

Agentes da Polícia Rodoviária Federal foram alertados de que um homem havia ameaçado uma família com arma de fogo em um posto de gasolina. Ao identificarem o veículo numa blitz, deram ordem para que ele encostasse, mas o motorista fugiu e foi perseguido por aproximadamente um quilômetro ao longo da Serra das Araras.

Franck Assunção era o motorista do veículo. Ele negou que tivesse ameaçado uma família. Com ele, foram encontrados uma pistola 9mm, dois carregadores e 16 cartuchos de munição. Os policiais relataram no boletim de ocorrência que Franck apresentava hálito etílico, mas se recusou a realizar o teste do bafômetro.

Franck Assunção, empresário, ex-diretor do Vasco — Foto: Arquivo PessoalFranck Assunção, empresário, ex-diretor do Vasco — Foto: Arquivo Pessoal

O empresário teve a prisão em flagrante convertida para preventiva pelo porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. Pela Lei 10826/03 do Estatuto do Desarmamento, ainda que a pistola estivesse registrada em seu nome, Franck não poderia transitar com ela carregada e nem próxima ao corpo (a arma estava no console central do veículo). Ele apresentou registro de atirador desportivo (CAC), mas não comprovou que estava a caminho de um clube de tiro ou campeonato.

Franck ficou preso por menos de duas semanas. No dia 23 de outubro, ele conseguiu um habeas corpus e saiu da prisão. O julgamento do caso ocorreu apenas em setembro do ano passado: a juíza Anna Luiza Campos Lopes condenou Franck a quatro anos e 27 dias de reclusão. Ele aguarda o trânsito em julgado em liberdade e, caso a sentença seja mantida, será preso ao fim do processo, o que pode ocorrer ao longo deste ano.

“Um exemplo de enganação”

Em 2017, Franck Assunção teve seu nome ligado à tentativa frustrada do Corinthians de contratar Drogba. Mas o episódio ao qual Franck é mais relacionado foi a fatídica passagem como diretor do Vasco, em 2012. Ele foi contratado sob a promessa de usar sua influência no exterior a favor do clube para conseguir um patrocínio, mas durou apenas um mês. Pessoas que fizeram parte da gestão admitiram ao ge, 14 anos depois, que tudo se tratou de “uma enorme trapalhada”.

Apesar da experiência curtíssima no clube, em seu material de apresentação Franck aponta que comandou o futebol do Vasco entre 2013 e 2014.

Em material de apresentação, Franck Assunção diz que foi 'CEO do futebol' do Vasco entre 2013 e 2014 — Foto: geEm material de apresentação, Franck Assunção diz que foi ‘CEO do futebol’ do Vasco entre 2013 e 2014 — Foto: ge

Franck foi contratado como diretor-executivo do Vasco em março de 2012 com o objetivo único e exclusivo de ajudar o clube a sair do buraco financeiro em que se encontrava. Ele dizia ter bagagem de 18 anos vividos na Europa, a maior parte desse tempo na Itália, e vendeu ao clube a possibilidade de conseguir um patrocinador estrangeiro. O presidente do Vasco era Roberto Dinamite.

Na época, o ex-jogador Henrique, bicampeão estadual pelo Vasco em 87 e 88, contou ter sido o elo entre Franck e a diretoria. Daniel Freitas ocupava o cargo de executivo do clube e conta que ficou com uma pulga atrás da orelha logo na primeira reunião com Franck e seus representantes, num restaurante de luxo em Copacabana.

– Até então, eu não sabia o motivo da reunião, estavam o (José Hamilton) Mandarino (VP de futebol), o Roberto e mais quatro pessoas, todas vestidas de terno, estilo europeu, calcinha apertada, sapatinho sem meia. E uma delas foi apresentada como Franck Assunção. Me disseram que o Franck estaria chegando para ser o diretor executivo do Vasco – se lembra ele.

“Eu achei aquilo muito estranho, não me passaram nenhum tipo de credibilidade, embora estivessem muito bem vestidos”, completa.

Coletiva de apresentação de Franck Assunção como diretor do Vasco em 2012. Ao seu lado estavam José Hamilton Mandarino e Roberto Dinamite — Foto: GloboEsporte.comColetiva de apresentação de Franck Assunção como diretor do Vasco em 2012. Ao seu lado estavam José Hamilton Mandarino e Roberto Dinamite — Foto: GloboEsporte.com

A coletiva de apresentação ocorreu no dia 8 de março. Quem acompanhou lembra que foi um constrangimento geral. Franck gaguejou, teve dificuldade de responder às perguntas dos jornalistas a respeito da função para qual estava sendo contratado e precisou ser auxiliado ora por Mandarino ora por Dinamite. O vídeo da apresentação não aparece mais no canal oficial do clube no YouTube.

Franck preparou um discurso de 13 folhas, não leu sequer a metade e deixou os papéis na sala da coletiva. O texto tinha rasuras, falava em “ousadia calculada” e previa até um momento para gesticular para os jornalistas.

Trechos do discurso preparado por Franck Assunção na sua apresentação no Vasco — Foto: geTrechos do discurso preparado por Franck Assunção na sua apresentação no Vasco — Foto: ge

– Isso tudo se transformou numa enorme trapalhada. Na realidade ele não tinha nada a oferecer. Era um camarada que deve ter sido empurrado sem absolutamente ter se preparado para desempenhar esse papel. Virou um exemplo de enganação – afirma Mandarino.

“Foi um episódio muito mais para galhofa, para o ridículo, exemplo de tentativa de fraude do que outra coisa qualquer”, completa.

Daniel Freitas recorda a reação dos jogadores quando Franck foi apresentado a eles no vestiário de São Januário.

– Foi uma cena bem constrangedora. Todo o elenco reunido, eu entrei e falei que teria uma reunião com o presidente e o Mandarino. Daqui a pouco, entraram o Franck e mais três ou quatro caras que o acompanhavam. E a reação dos atletas foi muito engraçada, eles se olhavam e riam de canto de boca. Quando Franck começou a falar, eles se entreolhavam e meio que riam disfarçadamente – lembra.

Em seu currículo, Franck dizia que havia trabalhado no Ascoli, da Itália, e no Chiasso, da Suíça. No entanto, os dois clubes negaram essas informações em contato com o ge na época, o que aumentou a desconfiança sobre o novo diretor.

Franck em seguida viajou para a Europa e chegou a se encontrar com Dinamite numa cidade pequena no interior da Suíça para debater parcerias, mas nada saiu do papel. O Vasco decidiu demiti-lo 30 dias depois do anúncio, mas Franck continuou na Europa apresentando-se como funcionário do clube – como no episódio em que jurou ter conseguido o patrocínio de um instituto financeiro com sede no Chipre.

– Foi uma aventura modelo Trapalhões. Um ato ridículo, que foi a tentativa de exploração do suposto prestígio que esse camarada teria, diante da pessoa que era. Ele não produziu nada, não fez nada, caiu no vazio e no momento seguinte foi demitido – conclui Mandarino.

Fonte: ge


Receba notícias do Vasco

Cadastre seu e-mail para receber os principais destaques do Vasco.