Desde os tempos do VHS e dos DVDs até a era dos vídeos na internet, qualquer compilação que se preze de Roberto, até hoje o maior artilheiro dos Campeonatos Brasileiro (190 gols) e Carioca (284), inclui esse gol em destaque. Um lance, entre as 708 vezes que balançou as redes com a camisa cruz-maltina, que se tornou um símbolo de sua carreira. Assista:
Era a reta final de um Clássico da Amizade empatado em 1 a 1. Ademir havia aberto o placar no primeiro tempo e Roberto igualou no segundo. No entanto, o Vasco, que precisava da vitória para manter viva a esperança pelo título, foi em busca do gol.
Em jogada iniciada por Luís Carlos, Dinamite recebeu pela esquerda, conduziu para o meio e acionou o atacante Dé, o Aranha, que devolveu. Ele, então, abriu com Zanata na direita, que cruzou e viu a bola encontrar o peito de Roberto. Com um toque de genialidade, Dinamite amacia, aplica um lindo lençol no zagueiro Osmar e finaliza de primeira, de voleio, para o gol, encerrando a partida em 2 a 1 para o Vasco e adicionando uma peça de mitologia ao futebol carioca no auge dos campeonatos estaduais.
Dé Aranha reconta a jogada
Atualmente comentarista esportivo, Dé (à esquerda, nas fotos) considera o gol como o mais bonito que presenciou no Maracanã. Ele relembra detalhes da jogada:
— Apesar de na foto só aparecer eu pulando para dentro do gol, me lembro muito bem. Normalmente, eu estaria na posição em que estava o Roberto (recebendo a bola na esquerda). Nesse momento, ele recebe a bola e eu estou no meio, na posição onde ele estaria. Ele entra na diagonal e faz um toque muito forte para mim. A intenção dele era tocar para eu ajeitar e ele bater para o gol. Mas ele me deu um passe alto e com muita força. O máximo que eu pude fazer foi devolver um pouquinho na frente.
Ele elogia a habilidade de Dinamite para dar sequência e concluir a jogada:
— Em vez de bater no gol, que nem poderia, ele faz o passe para o Zanata. A tentativa do Zanata era cruzar com a direita, mas o espaço estava fechado e ele leva para a perna esquerda e faz o cruzamento alto. Aí entrou a beleza, a sabedoria e a categoria do Roberto, que domina sem deixar cair no meio de dois zagueiros e faz um gol antológico. Sinto muito orgulho e alegria de ter jogado com o Roberto. Fui um coadjuvante, mas um coadjuvante bastante bom. Muito feliz por ter sido coadjuvante nesse lance e, nesses 50 anos, poder homenagear o inesquecível Roberto Dinamite.
Na primeira página da edição de 10 de maio de 1976, o GLOBO mostrava Roberto e Dé comemorando enquanto o goleiro do Botafogo, Wendell, aparecia caído. “Vasco reage e continua candidato ao título”, dizia a edição. E a reação valeu muito, já que o cruz-maltino conquistou aquela Taça Guanabara. No jogo extra, regra da época após empate em pontos, derrotou o rubro-negro nos pênaltis após um 1 a 1. O título estadual, porém, ficaria com o Fluminense.
Campeão brasileiro de 1974 com o Vasco, Dinamite ainda conquistaria cinco estaduais (1977, 1982, 1987, 1988 e 1992) com a camisa cruz-maltina. Lenda inquestionável do clube e do futebol nacional, o ex-atacante e ex-presidente vascaíno faleceu aos 68 anos, em janeiro de 2023. No entanto, sua memória permanece viva em São Januário, na estátua com os braços abertos voltados para a torcida, homenagem recebida ainda em vida.
Dois gols marcantes
Rodrigo Dinamite, filho do craque, conta que esse gol e o que marcou diante do Santos de Pelé, no Brasileirão de 1973 (que rendeu elogio em campo do Rei), eram os mais significativos para Roberto. Ele descrevia a jogada como instintiva.
— Onde a gente ia, tinha alguém para comentar “estava no Maracanã naquela noite”. Relatos de quem teve a honra de estar lá.
Em uma época de futebol moderno, em que o inglês Harry Kane, um centroavante alto, mas com habilidade técnica e inventiva para surpreender dentro da área, é um dos expoentes, vale recordar o camisa 10 de 1,86m, da Baixada Fluminense, que há 50 anos já revolucionava sua posição e desafiava expectativas.
“Que golaço maravilhoso do moço que mora em Caxias! Roberto, que voltou a ser Dinamite!”, é o ápice da narração de Vitorino Vieira, e a descrição catártica e sucinta de uma das maiores joias da memória do futebol carioca.
Fonte: O Globo
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