Essa crença está firmemente alicerçada nas mudanças financeiras que as SAFs proporcionaram aos clubes brasileiros, que antes enfrentavam enormes dificuldades econômicas. Embora o desempenho do Botafogo seja estrondoso, não é necessário ser campeão para festejar essa nova era. Times como Bahia e Fortaleza, em 2024, viveram talvez suas melhores temporadas, após deixar a fase de associações para trás.
Por outro lado, no Rio de Janeiro, o Vasco e o 777 Partners enfrentaram turbulências com a queda financeira dos norte-americanos. Agora sob nova administração, a associação procura por um investidor diferente. Em Minas Gerais, o Cruzeiro, pioneiro ao criar uma SAF, também desbravou o caminho das vendas. Em abril, Ronaldo transferiu 90% de sua parte no clube celeste ao empresário Pedro Lourenço, obtendo um lucro considerável. A temporada viu um aumento nos investimentos e uma final da Sul-Americana, mas terminou com a amarga sensação de não conseguir a vaga para a pré-Libertadores. Porém, a expectativa para o próximo campeonato é alta, evidenciada pelas movimentações da Raposa no mercado.
— A compreensão fundamental é que a SAF não é a solução mágica por si só. Sem um proprietário bem estruturado, planejamento, processos, investimentos e metas claras, essa forma jurídica é apenas mais uma associação. Um exemplo é o Vasco, que, ao escolher mal seu parceiro, acabou afundando. Não era segredo que a 777 Partners tinha um histórico controverso — ressalta Cesar Grafietti, especialista em economia do esporte e sócio da consultoria Convocados.
Situação dos clubes da Série A de 2025 — Foto: Editoria de arte/O GLOBO
Ainda assim, o especialista percebe um panorama positivo para 2024 e enxerga melhorias na estrutura, como é o caso do Botafogo. Ele acredita que a próxima etapa para as SAFs atuais é realmente se distanciar das associações. Mais do que resultados, precisam cultivar “práticas sustentáveis”. Grafietti destaca o Cruzeiro, que “gastou sem critério para montar uma equipe mediana”, e o Atlético-MG, que “ainda não entendeu seu projeto”.
O crescimento do mercado também se reflete em iniciativas regionais e em divisões menores. Em Minas, o Athletic, de São João Del Rei, conquistou seu acesso à Série B no mesmo ano em que negociou 21,5% de seu futebol com um grupo italiano. O Londrina, que busca retornar à segunda divisão, agora é comandado por Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia. A Portuguesa, por sua vez, foi adquirida em uma parceria entre três empresas (Tauá Partners, XP Investimentos e Reeve), resultando em um aporte de R$ 1 bilhão para reformar o Canindé e trazer o clube de volta à elite.
— Há bons projetos de SAFs nas divisões inferiores. Faz sentido apostar em clubes regionais, pois existe espaço para desenvolver estratégias. O perigo é acelerar o processo e ceder à pressão por resultados rápidos. Afinal, o futebol se constrói a longo prazo, criando estruturas, revelando atletas, formando elencos e sedimentando uma cultura esportiva. Casos de sucesso instantâneo tendem a ser efêmeros, pois não possuem uma base sólida — avalia Grafietti.
No Brasil, o Flamengo se destaca como um exemplo de clube associativo que se reestruturou sem transformar-se em uma empresa. O contexto, no entanto, era diferente. Foram longos seis anos para saldar dívidas e alterar o modelo de gestão até conquistar resultados financeiros expressivos, com receitas bilionárias, e triunfos, com troféus nacionais e continentais.
Hoje, os aportes nas SAFs não oferecem o tempo necessário para que os clubes associativos façam suas reestruturações de forma autônoma. Até lá, muitos podem ficar para trás. Não surpreende que outros clubes tradicionais estejam debatendo internamente sobre a criação de empresas. Ao menos sete integrantes da Série A estão nessa fase, com ou sem ressalvas. Ao longo do ano, O GLOBO ouviu dirigentes que apontam diagnósticos semelhantes: é preciso encontrar soluções para não ficar atrás.
— O tempo de sucesso das SAFs é relativo. Quando se negocia dessa forma, há um prazo mínimo para o investidor permanecer com o ativo. Talvez numa segunda onda, como o Cruzeiro foi o primeiro a tentar, perceberemos se a valorização ocorreu ou não, se é atraente para os atletas — explica Pedro Daniel, diretor-executivo da Ernst&Young.
Ainda existem, porém, elementos que afastam novos investimentos. Apesar da Lei da SAF ter regulamentado a constituição dos clubes-empresa, permanecem algumas lacunas, como um ambiente regulatório mais robusto.
— O investidor, ao destinar dinheiro a algum lugar, analisa o risco, se há segurança jurídica para estabelecer quanto arriscar. Aqui, carecemos de um fair play financeiro. Um fundo soberano, por exemplo, poderia investir um bilhão de dólares e prejudicar toda a indústria. Não há nada que mitigue o risco de lavagem de dinheiro — acrescenta Pedro Daniel.
Um dos tópicos envolvendo o debate sobre fair play já está sendo discutido. Com a maior liquidez no mercado do futebol, tudo se tornou mais caro. De acordo com uma pesquisa do Bolavip Brasil, nos últimos cinco anos, a média salarial dos jogadores da Série A subiu 13,5% por temporada. Esse índice é maior do que em algumas das cinco principais ligas europeias — como Espanha e Itália, que inclusive enfrentaram uma contração.
Fonte: ge
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