Anderson Luiz de Carvalho, conhecido como Nenê, não demonstra intenção de se aposentar dos gramados. Com uma carreira que já se estende por 27 temporadas, o meia foi contratado pelo Botafogo-PB e ainda nutre ambições no futebol.
Aos 44 anos, Nenê chegou ao Botafogo-PB com grandes expectativas em 2026, inspirando-se em Cristiano Ronaldo, que, aos 41 anos, continua jogando pelo Al-Nassr, na Arábia Saudita, sem sinais de declínio físico ou técnico e em busca do milésimo gol na carreira.
– Eu não sabia que eu estava com quase 300 gols. Tem páginas que colocam, que eu tinha colocado antes de eu chegar aqui, às vezes 288, aí uma 289, aí outra 285, aí outra 287. Quem é o meia que fez 300 gols na carreira? São pouquíssimos. Pode contar nos dedos, não só brasileiros. Porque os brasileiros são os que mais fazem gols. É uma coisa que me deixa muito orgulhoso e é um dos motivos para eu estar dando o meu máximo a cada dia – completou.
“Imagina você estar no mesmo nível de um Cristiano Ronaldo da vida, nível que eu falo desses tipos de recorde. Não tem como comparar ao nível de futebol jogado, mas estar junto no quesito longevidade, é uma honra, um orgulho muito grande, isso motiva muito. Mas eu nem penso assim no dia a dia ou no jogo, tem que ser uma coisa natural, que só fique na consciência. Aumentar mais esse ano aqui para o Cristiano não chegar (risos)”
— Nenê, em entrevista exclusiva ao ge
Em conversa com o ge, Nenê compartilhou suas inspirações, refletiu sobre sua trajetória no futebol e relembrou histórias marcantes, como a quase briga com Ibrahimovic durante um treino no PSG. Ele também comentou sobre uma possível transferência para o Corinthians e lamentou não ter conquistado um título pelo São Paulo.
Fazer história em João Pessoa
Além de suas metas pessoais, Nenê deseja deixar sua marca no Botafogo-PB. Ao aceitar o projeto de Gustavo Félix, proprietário da SAF do clube, o jogador se estabeleceu como a principal referência na campanha rumo à Série B.
Nenê abraça Henrique Dourado em primeiro treino no Botafogo-PB — Foto: João Neto/Botafogo-PB
Embora a promoção à segunda divisão seja o foco principal, o meia almeja a elite do futebol brasileiro após sua passagem pelo Juventude. Um objetivo ambicioso, mas viável.
– O clube já há muito tempo vem batendo na trave em relação a subir para a Série B. Então, são desafios que eu também gosto e topei esse desafio com todas as outras coisas que eu te disse também, até o lado financeiro também. Eu já vou mais longe, penso em levar o clube para a Série A. Eu sou um cara muito competitivo, nada é impossível no futebol. Eu já aprendi que não dá para me programar em nada, porque eu já estou programando minha despedida já faz anos – disse.
Encarou Ibrahimovic?
Quando Ibrahimovic chegou a Paris, Nenê já era uma das principais estrelas do PSG. O meio-campista brasileiro ingressou em um período de dificuldades financeiras do clube, antes que os grandes investimentos começassem a surgir. As contratações que antecederam a de Ibrahimovic foram de menor impacto, como Lavezzi, Verratti, Thiago Motta e Javier Pastore.
Durante a entrevista, Nenê recordou um desentendimento com Ibrahimovic em um treino. A reação dos colegas de equipe foi de preocupação, temendo pela segurança do brasileiro, já que o atacante sueco possui faixa preta em taekwondo.
Nenê e Ibrahimovic juntos no PSG — Foto: Getty Images
A polêmica também se estendeu ao uso da camisa 10. Nenê revelou que Ibrahimovic nunca expressou o desejo de usá-la, embora a mídia tenha amplificado a situação. O meia brincou que o sueco só assumiu a numeração após sua saída do PSG.
– Falaram que ele queria a minha camisa e eu não deixei. Foi algo que veio de fora, porque ele nunca tinha usado a 10. Ele sempre usou a 9 e a 11 no Milan. O cara agora do time é o Ibra e não é mais o Nenê, mas ele realmente nunca veio falar e não acho que não ia ter problema se falasse. Mas, assim, só pegou a 10 quando eu saí, né? (risos). Sempre fica essa brincadeira. Ah, não, espera aí eu sair e depois você pega, nariga (mais risos) – lembrou.
O brasileiro atuou em 112 partidas pelo PSG, anotando 48 gols e 16 assistências. Ele conquistou a Ligue 1 na temporada 2012-13, a primeira do clube parisiense desde os anos 90, o que o torna uma figura lembrada pela torcida francesa.
Proposta do Corinthians? Nenê preferiu o Vasco
Após sua passagem pelo PSG, Nenê jogou no Al-Gharafa, do Catar, e no West Ham, da Inglaterra, antes de decidir retornar ao Brasil em 2015. O jogador revelou que recebeu propostas, mas estava dividido entre dois clubes: Corinthians e Vasco.
O Timão parecia mais atraente, pois contava com um elenco forte e liderava o Campeonato Brasileiro. No entanto, dois aspectos fundamentais influenciaram sua decisão: a fé e o desafio.
– Eu balancei, eu iria para o Corinthians, não conhecia nada do Vasco. Eles estavam em primeiro (no Brasileirão), estavam bem no campeonato. Acho que o Tite até falou uma vez sobre isso. Procuro sempre colocar todas as coisas na balança para tomar uma decisão.
– Deu certo, tanto que acabei o campeonato como craque da galera, o melhor do campeonato eleito pela torcida num time que foi rebaixado. Se eu fosse para o Corinthians, eu ia ter sido mais um jogador só. Eu não ia ter sido marcado na história do Corinthians, por exemplo, e no Vasco eu sou um cara marcado – explicou.
Nenê comemora gol do Vasco contra o Palmeiras em 2015 — Foto: Marcello Zambrana/AGIF
De fato, Nenê se tornou um ícone entre os torcedores do Vasco. Contribuiu para que o clube retornasse à primeira divisão em duas ocasiões, conquistou o Campeonato Carioca de forma invicta em 2016, o último título do Cruz-maltino até o momento, e, por muito tempo, foi uma referência técnica da equipe. Ele não era torcedor, mas se tornou um admirador do clube que o respeita.
– Você receber esse carinho, essa recepção, tinha a faixa lá. Isso não tem preço. É uma coisa que poucos caras conseguem, jogando ainda, ter essa admiração, esse respeito. Mas é porque eu sempre respeitei também. Sempre dei a vida dentro de campo e o torcedor do Vasco viu isso. Até isso é um pouquinho de alegria que deu para a gente conseguir. Virei vascaíno e sempre vou agradecer e ser muito grato à torcida e a esse clube.
O jogo mencionado por Nenê ocorreu no ano passado, quando o Juventude enfrentou o Vasco em novembro, pelo Campeonato Brasileiro. O camisa 10 foi recebido calorosamente pelos torcedores, que prepararam fotos, vídeos especiais e uma faixa com os dizeres: “Obrigado, Nenê”. O meia marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 da equipe de Caxias do Sul.
A chapada do Nenê
O jogador ganhou destaque no Vasco, mas se tornou popular entre os mais jovens através de memes. O “vovô garoto” vê essa situação de forma natural, como uma maneira de se conectar com os jogadores do Botafogo-PB.
– Eu acho que é uma maneira de me conectar com eles. Eu tenho idade para ser o pai deles, mas sempre manter a cabeça, a mentalidade, jovem. Fico brincando que meu metabolismo é só na idade (44), na carcaça eu estou com uns 30 e poucos.
Um desses memes foi a “Chapada do Nenê”, em referência aos gols marcados pelo jogador com chutes curvados, utilizando a parte interna do pé. Popularizada pelo lateral-esquerdo Reinaldo durante a passagem do meia pelo São Paulo, Nenê acabou se tornando um símbolo dessa jogada.
Ao ser questionado sobre sua “chapada” favorita, Nenê recordou algumas de sua época no PSG e no Vasco, mas acabou escolhendo uma pelo próprio São Paulo. Foi em um jogo contra o Vitória, válido pelo Brasileirão de 2018, quando ele marcou um gol espetacular.
“Tem várias chapadas bonitas. A que virou mesmo assim o bordão da ‘chapada do Nenê’ foi no jogo contra o Vitória, o Reinaldo que entregou para a TV. Eu acabei quase dando meio que um lençolzinho. Eu dominei, a bola subiu assim, acabei tirando ele já de primeira, arrumando e dei a chapada lá no Morumbi, foi realmente um gol sensacional, muito bonito mesmo”
— Nenê
Com mais de 1000 jogos na carreira, Nenê continua motivado a seguir jogando. Apesar de ter poucos títulos, o jogador afirma que já conquistou o que desejava: o respeito e o carinho do torcedor brasileiro.
– Eu acho que isso é um legado muito bacana. E é isso aí que eu sempre quis obter durante toda a minha carreira. Eu não tenho tantos títulos assim. Eu sempre fui um cara que nunca ganhou muitos títulos. Mas isso daí para mim vale mais que uma taça – finalizou.
Nenê comentou sobre a possibilidade de conquistar um título neste domingo: o Campeonato Paraibano. Como destaque e líder, o meia busca ajudar o Botafogo-PB a levantar a taça neste sábado, às 16h45. O primeiro jogo da final contra o Sousa terminou com vitória por 2 a 1.
Veja outras frases da entrevista com Nenê
Adaptação no Botafogo-PB
– Você chega e o pessoal fica até meio assim, mas eu sou um cara muito tranquilo, sou um cara brincalhão, então eu já chego brincando, já quebro o clima. Eu falo que sou mais um aqui, venho para ajudar vocês e que sou muito competitivo, não aceito perder. Eu gosto de dar o exemplo no dia a dia, dentro de campo, nos treinamentos. Isso faz a galera baixar a guarda.
– Eu gosto de deixar sempre um ambiente muito legal, muito leve, muito alegre. Tem o pessoal da quinta série, eu sou do lado do pessoal da quinta série. Então, isso aí já vai deixando mais fácil a adaptação. Como sou só eu e minha esposa, meus filhos já estão grandes, cada um tem a sua vida, então, assim, é muito mais fácil também, né? Tem essa parte também, o calor, porque eu estava no frio, mas lá tem uma brisa muito legal em João Pessoa, não é aquela coisa que fica suando parado, então também ajuda.
Existe um segredo para uma carreira tão longa?
– Acho que não é só um. Primeiro de tudo, é a paixão, o amor que eu tenho pelo que eu faço, de você estar em um lugar que você tem aquela paz de que nasceu para fazer aquilo. A disciplina, sono, sem bebida alcoólica, se você não bebe durante vários anos ajuda alimentação. Eu fiquei muito tempo na Europa, eram menos jogos, também nunca te machuquei seriamente, nunca tive nenhum tipo de cirurgia. Quando eu cheguei no Brasil com 34 anos, eu ainda me sentia como se tivesse 20 e poucos. Eu sou muito abençoado.
Adaptação na Europa
– Na época, eu já estava casado, já tinha filho, fui com a família toda para um lugar bacana. Mallorca foi o primeiro clube, a cidade é sensacional, você come muito bem. Se procurar, também sempre vai ter uma loja de produto brasileiro. A língua era fácil, bem parecida com o português. Dei essa sorte de ir para cidades que me ajudaram.
– Você vai para a Rússia, Ucrânia, um frio danado aí, a língua muito difícil, nesses casos é mais complicado. Então, estando numa cidade que parece o clima do Brasil, não faz tanto calor, mas assim, é bonito igual. Foi tranquilo assim para mim, sabe? Como eu tive uma experiência em outros lugares da Europa, então isso me sustentou para ir ficando. Voltar para o Brasil para quê, se eu já tinha acostumado, tanto que eu até voltei para a Espanha ainda.
Carinho da torcida do PSG
– Eu nunca imaginei (o carinho da torcida). O Paris Saint Germain sempre foi um time grande na França. Digamos assim, em termos de comparação, que o momento era parecido com o do São Paulo. O São Paulo, lá na época em que fui, há muito tempo não ganhava título, estavam tendo que reconstruir tudo novo.
– Sempre teve o nome, a estrutura também era muito boa, mas claro, nem em comparação com o que é agora. A ideia deles na nossa época era voltar a disputar uma Champions League e voltar a disputar títulos, passavam por problemas não só financeiros, mas o time mesmo não estava rendendo. Pressão grande, porque lá a torcida é embaçada. E eu gosto dessa parte que eu já te falei do meu desafio.
– Eu gosto dessa parte de, tipo assim, vou conquistar uma coisa que seria muito difícil. Se já tivesse bem, eu ia ser mais um. Cheguei num momento em que o time brigava para não cair e fazia uns 4, 5 anos que não disputava competições Uefa. Logo no primeiro ano, a gente já disputou título, brigando ponto a ponto.
– Fui eleito o melhor do time do campeonato com o (Eden) Hazard, que um ano ficou em primeiro, no outro ano eu ganhei e ficava nessa briga aí. Pessoal gosta de brasileiro lá, porque é um futebol mais físico. Desde o Ronaldinho, o Raí. Esse gosto pelo brasileiro é uma coisa que já me ajudou.
Ida para a Arábia Saudita
– Eles sempre tiveram essa coisa do futebol como um hobby, sabe? Algo mais secundário para eles. Financeiramente, os caras eram muito acima do resto. Eu tive a proposta do Milan, do Schalke, dos próprios times brasileiros, quase que acabei fechando com o Santos na época ainda.
– Eu estava praticamente fechado assim mesmo, mas os times da Europa pagavam menos, do Brasil também, enquanto os caras do Catar, pô, aí dobrava o que ganhava onde eu estava. Na época, foi uma escolha financeira, mas foi uma experiência muito bacana, um lugar legal para se viver. A única coisa é que a competitividade lá era muito baixa. Passaram dois anos e parece que você está sempre jogando amistoso.
Chegada ao Vasco e arrancada
– Foi incrível, esse segundo turno foi incrível. Foi uma coisa surreal assim. Quando eu cheguei, todo mundo já falou que o time já tinha caído em agosto. Me perguntavam: ‘O que você veio fazer aqui?’. Quando acabou o campeonato, eu tive proposta de todos os times grandes, na maioria dos times grandes, inclusive dos rivais, Palmeiras, Flamengo, Atlético, São Paulo, mas acabei ficando no Vasco na Série B.
– Foi uma identificação tão grande com o clube, com os torcedores, que a gente vê isso até hoje. Até hoje, a torcida pede para eu voltar para lá. Eu sou o segundo maior artilheiro do século do Vasco, sendo meia, e um cara que fez mais assistências no século no clube, consegui ajudar o time a subir duas vezes. Mas aí por coisa de problema de salário, que não estava recebendo, o Eurico (Miranda) saiu, teve um monte de problema e eu acabei tendo que sair.
Batalha de Itu
– Eu, por incrível que pareça, estava muito tranquilo. Nós fomos para um hotel lá em Itu, aí dois, três dias antes, ansioso demais, acho que todo mundo estava ansioso. A gente já poderia ter subido faz tempo, acabamos dando uns moles lá. Acho que foi até um pouco disso daí, pois você tem que profetizar uma coisa para antes dela acontecer e às vezes ela acaba acontecendo então.
– Dormi bem e tal. Fui para o jogo e estava lotado de gente, ainda tinha as cores do rival do Vasco. Na hora em que saiu o pênalti, meio que eu já sabia e acabei fazendo o gol. Tomamos uma pressão danada mesmo com um a mais. Quando acabou, saiu um peso mesmo. Imagina o Vasco, dois anos seguidos na Série B, acho que fazia muitos anos que não acontecia isso, todo mundo ia ficar marcado de uma maneira ruim.
O que faltou para ser campeão em 2018?
– Estávamos ali, se não me engano, entre os primeiros, se não estava primeiro. Ficamos em primeiro no Brasileiro um tempão assim. O elenco era curto, a gente acabou não aguentando porque tem que ter dois elencos titulares. O Palmeiras e o Flamengo sempre ganharam por isso, depois chegou outubro, novembro, a gente ficou naquela.
– Realmente não tinha como aguentar 60 jogos jogando no mesmo nível só com os mesmos jogadores. Aí tinha jogadores que tinham machucado, jogadores tinham saído, Militão tinha saído, o Rojas machucou porque o time era certinho, né. Foi um ano muito bom, conseguimos vaga na Libertadores, que também fazia um tempão que já estava brigando para não cair e tal. Mas é uma pena mesmo não ter conseguido manter na briga pelo título.
Fonte: ge
Conversa da torcida
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