Data da gravação: 29/04/2026
Por Anna Flávia Barreto.
Gostaria que a senhora se apresentasse, falasse seu nome, onde nasceu e quais são as primeiras lembranças da sua infância.
Meu nome é Margarida Lourenço de Oliveira. Quando solteira, era Margarida Portugal Lourenço, por isso aparecia como Margarida Portugal nos jornais. Sou viúva, mãe de dois filhos e avó de três netos. Nasci em Portugal e cheguei ao Brasil com cinco anos, sem retornar mais. Casei com um brasileiro e minha família é toda brasileira. Não tenho recordações de Portugal, apenas da viagem ao Brasil. Meu pai veio primeiro com meu tio, e eu vim depois com minha mãe, meu irmão, a esposa do meu tio e seus dois filhos. Minha mãe e minha tia passaram mal durante a viagem, enquanto eu me divertia no convés, onde os marinheiros me davam chocolate. Ao chegarmos ao Rio, moramos em Vila Isabel, em uma casa alugada por meu pai e meu tio. Depois, mudamos para a Rua 28 de Setembro e, em seguida, para a Rua Frei Caneca, onde meu pai tinha uma quitanda e um armazém.
Como começou a frequentar a arquibancada? Seus pais tinham alguma relação com o Vasco?
Comecei a ir ao futebol por meio de um amigo do meu pai, chamado Eduardo, que nos levou ao clube e à sala de troféus. Era um dia de semana e não havia muitas pessoas. O Maneca estava lá e nos mostrou a sala, o que me encantou. Desde então, passei a acompanhar os jogos na arquibancada com Eduardo e seu sobrinho. Minha mãe ouvia os jogos em um radinho de pilha e era apaixonada pelo clube, enquanto meu pai não se importava muito. Eles frequentavam as festas em São Januário, mas apenas meu irmão Mário e eu íamos aos jogos.
Como surgiu a ideia da Torcida Uniformizada? E como foi a estreia da torcida?
Um dia, o diretor social do Vasco, Álvaro Ramos, nos convidou para fundar uma torcida. Na época, João De Lucca comandava a torcida, mas já não participava ativamente. Com o apoio de Álvaro, começamos a organizar a Torcida Uniformizada do Vasco (TUV), que foi criada em 1954. O uniforme consistia em uma camisa branca com gola preta e um bolsinho com a cruz de malta. Ele forneceu o material e as pessoas mandavam fazer suas camisas. A estreia da torcida foi divulgada pela imprensa, mas uma briga no campo acabou ofuscando esse momento. A torcida cresceu e se tornou composta por muitas famílias. Íamos a várias estações de rádio que Álvaro arranjava, acompanhando o time em todos os lugares.
Algum torcedor nessa época tinha destaque? Como um líder ou chefe de torcida?
Meu irmão, Mário, era o verdadeiro líder da torcida, embora muitos pensassem que eu era a chefe. Eu o ajudava na organização, mas ele era mais reservado. Depois, passamos o comando para Dulce Rosalina, mas continuamos torcendo pelo Vasco, mesmo sem frequentar mais os jogos.
De que forma a torcida se organizava e se estruturava nessa época?
Os torcedores colaboravam para comprar bandeiras e, mesmo com a proibição de fogos, conseguimos levá-los para os jogos. Havia rapazes que tocavam tambor e escondiam fogos em seus instrumentos. Um jogador do Vasco, conhecido como Coronel, costumava nos acompanhar na arquibancada e era um torcedor fervoroso. Em 1954, fizemos flâmulas, mas não guardei nenhuma. A sede da torcida ficava na Rua Frei Caneca, onde meu pai tinha uma quitanda e um armazém.
Quem fazia parte da Torcida Uniformizada? Havia muitas mulheres na torcida?
Os membros da torcida incluíam Aida de Almeida, Dona Idalina Barbosa e suas filhas Hilda e Marlene, além de mim e do meu irmão Mário. O grupo contava com muitas mulheres, incluindo Madame Bastos, uma modista famosa que frequentava a torcida. Embora não houvesse um comando formal, meu irmão e eu éramos responsáveis por levar as bandeiras e o material para os jogos, o que fez com que as pessoas nos vissem como líderes.
O João De Lucca participava da torcida nessa época?
João De Lucca nunca fez parte da nossa torcida. Quando começamos a crescer, ele se afastou e não chefiou mais nenhuma torcida. Nós éramos sócios e torcíamos na arquibancada, enquanto ele preferia a área social. Com o apoio de Álvaro Ramos, a Torcida Uniformizada surgiu após a saída de De Lucca.
Quais músicas ou marchinhas eram comuns nessa época? A torcida já tinha muitos instrumentos?
A torcida utilizava vários instrumentos, como tambor e tarol. O Ramalho da mamona era uma figura marcante, que fazia barulho com talos de mamona durante os jogos. Naquela época, não tínhamos muitas músicas ou marchinhas.
Como foi viver a época do Expresso da Vitória? Como era o relacionamento dos jogadores com a torcida?
A maior emoção que vivi assistindo aos jogos do Vasco foi quando Chico marcou um gol olímpico. A alegria da torcida foi contagiante. Os jogadores tinham um bom relacionamento conosco, especialmente Chico, Ely e Barbosa, que nos recebiam bem após os jogos em São Januário.
Como foi ver o Expresso da Vitória jogando pela Seleção? Com o Vasco convocando oito jogadores, como a torcida se preparava para acompanhar seus jogadores na Copa?
Na Copa de 1950, eu já acompanhava futebol, mas não fazia parte da torcida. Lembro-me de um aniversário triste, pois planejei comemorar no dia do jogo, mas o Brasil perdeu e ninguém ficou para a festa. Foi uma decepção.
Nessa época já havia muitas brigas entre as torcidas e os rivais? Como a torcida reagia aos clássicos contra os times do Rio nessa época?
Naquela época, tínhamos uma boa relação com a torcida do Flamengo, liderada por Jaime de Carvalho, e não havia confusões. Hoje, as rivalidades são muito mais intensas, mas na nossa época, respeitávamos os lados de cada torcida e evitávamos brigas.
Na década de 1950, o remo era o segundo principal esporte do Brasil. Vocês, como torcida organizada, costumavam acompanhar o Vasco no remo também?
Sim, acompanhávamos o Vasco na lagoa. Um fotógrafo pediu para eu fazer gestos de torcida, e disseram que isso seria exibido no cinema, embora eu nunca tenha visto.
A torcida tinha dois lemas: “Com o Vasco, onde estiver o Vasco”, que era um lema da década de 1930, e “Felicidade, teu nome é Vasco”, uma frase bem presente na Torcida Uniformizada. Qual a origem dela?
Adotamos a frase “Felicidade, teu nome é Vasco” após lê-la em um jornal, onde o Mirim a usou após uma vitória do Vasco. Assumimos a frase como dele, mas não confirmamos sua origem.
Em uma entrevista da Dulce Rosalina à Revista do Esporte, em 1959, ela comentou que sucedeu a senhora no comando da torcida do Vasco em 1956. Por que escolheram a Dulce?
Trecho da entrevista:
“Dona Margarida era auxiliada pelo seu irmão Mário Portugal. Dona Margarida sucedeu João de Lucca na chefia da Torcida Cruzmaltina. Era uma criatura dedicada, mas limitava-se a percorrer as arquibancadas, recolhendo dinheiro para a compra de fogos. Eu a conhecia, e nos tornamos grandes amigas. Um dia, faleceu o pai de Dona Margarida, e ela achou que não podia mais continuar à frente da nossa torcida. Então, me passou o cargo no programa Vasco em Revista, da Rádio Continental, isso em 1956.”
Não me recordo de ter ido à Rádio Continental, acho que foi na Rádio Vera Cruz. Eu não deixei a torcida por causa da morte do meu pai. Meu irmão começou a namorar uma moça que não gostava de futebol e ele parou de ir aos jogos. Assim, passamos o comando da torcida para Dulce Rosalina, que tinha mais disponibilidade para acompanhar o time.
Para finalizar, um conselho para a nova geração de vascaínos:
Acredito que, se você é vascaíno, deve apoiar o Vasco em todas as situações, seja na vitória, na derrota ou no empate. É fundamental sempre estar ao lado do clube, como a torcida faz.
Fonte: Blog Torcidas do Vasco



Conversa da torcida
Sua opinião ajuda a fortalecer a torcida. Vale comentário curto, reação rápida ou até GIF.
Comente com a torcida
Entre para participar da conversa.
Seu e-mail fica privado
Seu e-mail não aparece publicamente. Ele é usado apenas para identificar seu comentário e, se necessário, contato do site.
Entre para comentar com seu avatar. Você volta para este post automaticamente.
Crie sua conta em segundos. Você volta para este post automaticamente.
Torcida falando agora
Comentários recentes da comunidade em outras notícias e espaços do MeuVasco.