Feminino: Marta recorda seus primeiros passos no Vasco e nega aposentadoria por agora

Marta relembra seus inícios no Vasco e afirma que não está pensando em se aposentar neste momento

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Além dos troféus: como Marta enxerga as transformações do futebol feminino — Foto: Reprodução/Bruna Castanheira, GrouPartAlém dos troféus: como Marta enxerga as transformações do futebol feminino — Foto: Reprodução/Bruna Castanheira, GrouPart

Antes de se tornar um ícone do futebol, Marta trabalhou em diversas funções, como lavar pratos, vender geladinhos e entregar compras em Dois Riachos (AL) usando uma carroça de mão. “O objetivo era chegar ao Rio de Janeiro”, relembra, ao falar sobre a expectativa que sentiu antes do primeiro teste em um grande clube, aos 14 anos. Após passar a noite ao lado de um orelhão, aguardando a ligação que confirmaria seu destino – já que poucos em sua cidade natal tinham telefone –, partiu sozinha para a capital fluminense.

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“Fui com dinheiro contado, decidindo se almoçava ou jantava. E não podia tomar banho, pois era pago! Passei três dias no ônibus nessa situação”, relata. Ao chegar, foi aprovada imediatamente no Vasco da Gama.

O restante é história. Com seis prêmios de melhor jogadora do mundo pela Fifa, sendo cinco consecutivos (2006 a 2010), Marta também conquistou três medalhas de prata nos Jogos Olímpicos (Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024), foi bicampeã dos Jogos Pan-Americanos (2003 e 2007), vice-campeã da Copa do Mundo (2007) e tetracampeã da Copa América (2003, 2010, 2018 e 2025). Além disso, é a maior artilheira da Seleção Brasileira, somando 132 gols.

Para quem acredita que falta um ouro em sua coleção, a camisa 10 tem uma visão diferente. “Esses feitos, que para mim são inéditos, ajudaram a impulsionar a modalidade. Estamos vivendo um cenário positivo e promissor. Portanto, a ausência dessa medalha não me frustra”, afirma. “O que mais ouço é que preciso me despedir com chave de ouro. Estou ciente das expectativas, mas vivo um dia de cada vez. Minha vida inteira tive essa pressão, então já não sinto mais esse peso. Não perco o sono pensando na Copa do Mundo Feminina do ano que vem.”

Para ela, conquistar o Mundial em casa é uma possibilidade, mas não deve ser uma obsessão. Mesmo assim, deixa claro: “Se pudesse, trocaria todos os meus títulos individuais por um coletivo, porque sei que isso é importante para as meninas da Seleção, para o nosso país, para o povo brasileiro”, destaca a atleta, evidenciando seu forte senso de coletividade.

Com a humildade de quem reconhece ser parte de um todo, ela afirma: “Não sou pioneira, sou uma continuidade de um projeto de milhares de atletas que vieram antes de mim. Apenas dei seguimento, encontrei a sementinha que foi plantada e cuidei dela. Tenho consciência de que a terra ainda não está tão fértil, então precisamos cuidar, pois um dia colheremos os frutos.”

Ao refletir sobre a evolução do futebol feminino, Marta observa que sempre houve uma pressão para que o esporte nacional conquistasse títulos antes de receber investimentos. “Como vamos vencer primeiro para merecer investimento? Deveria ser o contrário. Precisamos ter uma visão voltada às categorias de base, para manter os campeonatos e ter as mesmas oportunidades que outros países de se prepararem adequadamente para as competições”, pondera.

Embora reconheça que ainda há um longo caminho a percorrer, a atleta percebe avanços desde o tempo em que recebia R$ 400 mensais – “Uma maravilha!”, brinca – jogando pelo Vasco. “Muitas pessoas lutaram, se dedicaram e jogaram em campos de terra batida para que hoje as meninas tivessem uma estrutura, um reconhecimento e um apoio maiores. Ninguém quer que elas passem pelo que nós passamos. Agora, elas podem se concentrar apenas em dar o seu melhor.”

Foram essas mesmas veteranas, que jogavam em um tempo em que a lei proibia mulheres de praticarem o esporte, que mostraram a jovem Marta que havia um lugar para ela no futebol. “Estava sentada no sofá de casa, assistindo a uma televisão em preto e branco, quando vi o futebol feminino pela primeira vez. Tinha 9 anos e disse à minha mãe: ‘Um dia a senhora vai me ver jogando na TV’.”

Três décadas e muitas conquistas depois, Marta ainda reconhece em si a menina que queria provar seu valor e que nunca deixou as críticas definirem seu caminho. “Quando os meninos da rua não me deixavam brincar de bola, isso me impulsionava, sabe? Era uma raiva boa. Eu reunia todos os pernas de pau do meu lado e dizia: ‘Vamos lá!’ Quando você se conhece e tem clareza sobre o que deseja, leva consigo apenas o que é importante.”

A clareza sobre sua identidade também guia sua forma de lidar com a exposição, preservando sua intimidade com cuidado. Uma exceção foi quando compartilhou em seu perfil no Instagram imagens do casamento com a jogadora Carrie Lawrence no início do ano, mas sem grandes declarações – prefere falar sobre futebol.

A consciência de seu próprio valor é a mesma que repele as opiniões sobre sua aposentadoria e mantém acesa a chama competitiva. Para aqueles que questionam quando ela irá parar, a resposta é firme: “Você conhece minha trajetória? Você me acompanha todos os dias? Sabe o quanto me cuido? Se ainda estou jogando nessa idade, é porque abri mão de muitas coisas. É porque ainda vejo algo dentro de mim. Na minha mente, no meu corpo. No dia em que sentir que nada disso faz mais sentido, eu vou parar. Eu me conheço melhor do que ninguém. Sei dos meus limites, mas também da minha capacidade. E é por isso que estou jogando até hoje.”

Fonte: Marie Claire


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