
O Vasco vai ao ataque em um jogo em São Januário. Enquanto a torcida se anima pela possibilidade de celebrar um gol, tremula na arquibancada uma bandeira com um símbolo do clube e as cores LGBTQIA+, representatividade que era impensada por um jovem Milton Cunha, que cresceu com a imagem do futebol muito demarcada pela masculinidade viril.
A relação de Milton com o esporte mudou quando cursava faculdade de psicologia. Durante suas pesquisas, começou a conhecer mais sobre o Vasco, clube que ouvia falar pelo avô, torcedor do Cruz-Maltino — que também tinha ligação com a Tuna Luso.
“Nas pesquisas universitárias, fui descobrindo esse caráter revolucionário e democrático do Vasco. Os jogadores negros, o apoio contra a homofobia… Meu avô me chamava de Júnior. Eu pensei: ‘Júnior, então o time do teu avô era babado fortíssimo, uma célula de liberdade’”, afirmou Milton Cunha em entrevista ao UOL.
Assim que se formou, Milton se mudou para o Rio de Janeiro, onde estreitou os laços com o clube de São Januário, que pode voltar a uma final continental após 26 anos. Nesta terça-feira, o Vasco visita o Boca Juniors, às 21h30, pela ida da semifinal da Sul-Americana.
Às vésperas de um momento decisivo para o time, o UOL convidou o famoso carnavalesco a revisitar sua trajetória com o esporte mais popular do Brasil, que, apesar de diversos movimentos, ainda convive com muito preconceito.
Milton Cunha passou a infância na Ilha de Marajó, em uma família que frequentava o Tuna Luso, um dos principais clubes do Pará. Com a mesma cruz, ele brinca.
Na infância, ele viu o futebol como um fardo, sentindo-se deslocado em um ambiente que parecia reservado para meninos héteros. “Eu era a bichinha. Queria a dança, o artesanato, eu tinha os talentos manuais, e isso era um drama”, recorda.
O futebol causava estranhamento a Milton, que cedo entendeu a exclusão daquele ambiente. “Sempre que podia, na aula de Educação Física, não escolhia o futebol. Eu escolhia a corrida, o vôlei, outras coisas. O futebol era um terreno muito demarcado dessa masculinidade viril, que não me interessava”, explica.
Ele se refere ao futebol como um território apartado, onde se reuniam aqueles que, por qualquer motivo, não se encaixavam no perfil esperado. “Eu estava com os ditos ‘esquisitos’, o que na infância é cruel. Era a junção dos afeminados, intelectuais, nerds… E havia meninos, mesmo gays, que gostavam de futebol. Não era apenas uma questão de sexualidade”, comenta.
Milton recorda que, nas arquibancadas dos jogos da Tuna Luso ou nas reuniões para ouvir os jogos na rádio, o homossexualismo era usado como xingamento, o que o afastava ainda mais do esporte. “Se eles chamam os jogadores de viado, do que me chamariam, então?”, questiona.
Ele entendeu que o futebol era uma paixão nacional aos 8 anos, quando viu as pessoas se reunirem para assistir aos jogos da Copa do Mundo de 1970. “Naquela mesma época, prestava atenção no esporte por outro prisma. Os comentaristas diziam: ‘Olha o balé do Garrincha’ e pensei: ‘que interessante’. O jogador de futebol talentoso pode, com a ginga, malandrear com a bola”, relata.
A figura de Pelé também ajudou a moldar sua visão sobre o futebol. “Eu peguei aquela geração Pelé, arrebatadora, fabulosa. Passei a enxergar esse talento brasileiro pelo qual eu não me interessava. O que não me deixava me entregar essa paixão era a homofobia dos torcedores”, afirma.
O Vasco entrou na vida de Milton através do avô, tornando-se uma das portas de entrada dele no futebol. “Olha como você pode se surpreender. Aqueles homens viris, que gritam, apoiaram a possibilidade de cada um ser quem é. Aí eu disse: ‘Então tá: sou Vasco’. Eu já tinha meus 18 anos, e o Vasco entra. Já não tinha mais vergonha, o medo, via que eles defendiam coisas boas”, diz.
Quem levou o carnavalesco à Barreira do Vasco, comunidade próxima a São Januário, foi Francisco Horta, presidente da Unidos da Tijuca e torcedor vascaíno. “Chegando lá, não tem a Muralha da China que estava no meu imaginário. Pensava em uma barreira maravilhosa. Era apenas a cidade se misturando, o povo”, conta.
Nos últimos anos, diversos clubes têm feito ações contra a homofobia, e o Cruz-Maltino lançou uma camisa com as cores da bandeira LGBTQIA+ na faixa transversal, presenteando Milton com uma delas.
“Este é o futebol que quero pertencer, que não usa o que a gente faz para ser sinônimo do ‘viado, pega a bola’. Moço, nós, viados, somos talentosíssimos. Os viados que querem jogar futebol são um espetáculo. Eles sabem jogar futebol, porque a gente, quando tem um talento, se dedica àquilo de tal forma que parece a tábua de salvação, parece a única forma de inserção no mundo”, conclui Milton.
HISTÓRIA DO VASCO AJUDOU MILTON CUNHA A SUPERAR HOMOFOBIA: “UMA CÉLULA DE LIBERDADE”
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