O Conselho Fiscal (CF) aponta uma “deterioração relevante da situação econômico-financeira” da SAF ao longo de 2025. O parecer, assinado pelo presidente do órgão, Marco Norci Schoreder, e pelos demais integrantes, Carlos Antonio Rodrigues Jorge e David Tavares Nunes, também menciona “incertezas relevantes quanto à capacidade de execução do Plano de Recuperação Judicial”. Os conselheiros expressam preocupação com a falta de evidências sobre a observância dos procedimentos formais de governança corporativa.
Entre os atos questionados pelo CF, destaca-se o investimento de cerca de R$ 100 milhões em contratações para 2026 e a necessidade de esclarecimentos sobre o processo de Recuperação Judicial.
O segundo ponto refere-se a um assunto que já havia sido levantado por um grupo de sócios em janeiro de 2025, quando associados questionaram um possível conflito de interesses do presidente da Assembleia Geral do Vasco, Alan Belaciano, no contexto do processo de Recuperação Judicial. Antes de assumir o cargo, Belaciano atuou como advogado de jogadores que processaram o Vasco, resultando em vitórias judiciais e na condição de credores do clube.
Na ocasião, Belaciano afirmou que nunca atuou como advogado do Vasco e que “não participou da elaboração, negociação e/ou aceitação do acordo com nenhum credor”.
Os membros do CF ressaltam que não tiveram acesso a investigações sobre “eventual participação de membros do CRVG com credores”. O assunto foi discutido em reunião do Conselho Fiscal em 18 de fevereiro de 2025.
— Foi mencionada a participação do presidente da AGE do CRVG (Alan Belaciano) como negociador do Vasco na classe 1 de credores, o que contrasta com seu histórico como advogado trabalhista em ações anteriores contra o CRVG, cujos autores são credores da Classe 1. O Conselho Fiscal identificou um possível conflito de interesses que deveria ter sido devidamente apurado pelos órgãos de governança do CRVG — diz um trecho do parecer.
No documento, o Conselho Fiscal exige esclarecimentos sobre sete casos recentes que o Vasco e a SAF tentam contestar no processo de Recuperação Judicial. O clube busca cancelar cobranças consideradas indevidas, totalizando R$ 10,8 milhões nos sete casos.
Um dos casos envolve o ex-lateral Max, conforme reportado pelo canal “Expresso 1923”. Ele é representado por Moises Gleicher, advogado que assumiu casos anteriormente tratados por Alan Belaciano, que foi alvo de questionamentos de sócios no ano passado. O Vasco alega que houve má-fé e tentativa de induzir a Justiça a erro. O ge entrou em contato com Moises, que não respondeu até a publicação desta reportagem.
Max, ex-Vasco, em ação contra o Fluminense em 2010 — Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Os outros seis casos envolvem os credores: Daniel Soares Gonçalves, Glória Regina Ramos Brochado, Ricardo Lopes da Silva, Rodney Martins de Castro, Samuel Brandão Sobrinho Neto e Sérgio Eduardo Meksyk.
A juíza do processo de Recuperação Judicial solicitou manifestações da Administração Judicial e do Ministério Público em razão das “gravidades dos fatos apresentados”.
A situação reacendeu questionamentos em correntes da política vascaína, especialmente dentro da SempreVasco, grupo de Pedrinho que já defendeu Alan em diversas ocasiões, mas ficou surpreso com a apuração de casos como o do ex-jogador Max. Em entrevista em 2025 ao canal Expresso 1923, o vice-jurídico Felipe Carregal afirmou que não havia conflito de interesses: “Ele (Alan) foi um consultor, mas não tinha poder para decidir.”
O ge questionou o Vasco sobre o parecer do Conselho Fiscal. A resposta foi a seguinte:
“O Vasco considera o assunto superado, uma vez que se manifestou durante a implantação da recuperação judicial, quando todas as tratativas com os credores foram conduzidas pela Alvarez & Marsal e escritórios especializados terceirizados.”
“Incertezas relevantes”
O parecer do Conselho Fiscal expressa preocupação com as contratações do Vasco para 2025 e 2026, destacando que desde 2023 existem “incertezas relevantes quanto à continuidade operacional do Vasco da Gama SAF”.
“Observa-se que a SAF apresenta um histórico de resultados negativos desde sua criação, sem registros de lucro exceto em 2025, devido à recuperação judicial. Os resultados apurados entre 2022 e 2024 foram, respectivamente, prejuízos de R$ 88 milhões, R$ 123 milhões e R$ 114 milhões, e, no exercício de 2025, o resultado teria igualmente apresentado prejuízo de R$ 232 milhões, não fossem os efeitos do Plano de Recuperação Judicial”, diz um trecho do documento, com seus grifos correspondentes.
A preocupação se deve ao “incremento dos custos operacionais e das despesas gerais e administrativas”. Segundo o Conselho Fiscal, houve um aumento de aproximadamente 60% em relação a 2024. O questionamento se estende às ações do Vasco no mercado de jogadores neste ano, uma vez que “em um contexto de uma Companhia em processo de Recuperação Judicial e sujeita a restrições financeiras relevantes, foram realizados investimentos significativos na aquisição de atletas, totalizando cerca de R$ 100 milhões.”
“Este Conselho Fiscal entende que decisões dessa natureza, dada sua materialidade, e mesmo ciente das repercussões futebolísticas envolvidas, deveriam estar estritamente alinhadas à capacidade financeira da SAF, ao plano de recuperação em curso e à existência de fontes de financiamento claramente identificadas. Na ausência desses elementos, tais investimentos mostram-se, em princípio, desalinhados com a necessidade de preservação de liquidez e de reequilíbrio econômico-financeiro”, afirma outro trecho, também com grifos do parecer.
O parecer critica o processo de contratações, classificando-o como de “baixo nível de transparência e reporte às instâncias de governança”, uma vez que “as melhores informações disponíveis encontram-se concentradas em um grupo restrito de pessoas”.
Sem citar nomes dos reforços, o documento recomenda medidas para que o processo seja mais transparente, incluindo “limites de alçada”, “caráter colegiado” e “apresentação de justificativas econômicas e financeiras que sustentem as decisões de investimento – por exemplo, quais foram os valores das últimas vendas de um determinado jogador? À luz dessa informação, faz sentido comprá-lo nos valores sugeridos?”.
“Este Conselho Fiscal registra que não tem sido sistematicamente consultado ou informado acerca dessas operações, salvo mediante solicitação específica ou em casos pontuais de maior relevância, como nas transações dos atletas João Victor em 2025 e de Rayan Vitor Simplício Rocha, realizada já em 2026”, concluem os membros do Conselho Fiscal da SAF.
Fonte: ge
Renato Brito, Paulo Salomão, Pedrinho e Alan Belaciano, em posse da chapa de Pedrinho, em 2024 — Foto: Fotos: Dikran Sahagian/Vasco da Gama
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