O primeiro capítulo do ranking histórico elaborado pelo GLOBO, que avalia quais clubes mais contribuíram para a trajetória da seleção em Mundiais, revela um vencedor que pode surpreender muitos: entre 1930 e 1950, o time de São Januário é o que mais influenciou a história da seleção brasileira.
A série, que inicia hoje, a um mês da estreia do Brasil em mais um Mundial e que será publicada até segunda-feira, tem como objetivo revisitar a história das Copas sob uma nova perspectiva. Em vez de focar apenas em títulos, jogadores icônicos ou partidas memoráveis, o levantamento busca responder a uma pergunta diferente: quais clubes realmente ajudaram a construir a seleção brasileira ao longo do tempo?
Para isso, o ranking atribui pontos com base em convocações, partidas jogadas, gols marcados e até pela formação dos atletas que representaram o Brasil em Mundiais. O resultado cria uma espécie de “campeonato paralelo” das Copas, oferecendo uma nova maneira de entender a evolução do futebol brasileiro.
O Brasil nas primeiras Copas apresentava um cenário futebolístico bastante distinto do que se veria posteriormente. Antes da seleção se tornar campeã do mundo e antes do icônico trio formado por Pelé, Garrincha e 1970, o futebol era muito mais regional e caótico. O ranking ajuda a revelar esse mapa quase esquecido do futebol brasileiro, onde clubes hoje menosprezados, como Andarahy, Syrio, Petropolitano, Hellênico e Ypiranga de Niterói, aparecem pontuando na história das Copas. Embora possa parecer estranho atualmente, isso faz sentido: a seleção ainda não era plenamente “nacional”, mas sim um mosaico de ligas regionais e relações políticas dispersas pelo país.
Nenhum centro de poder era mais influente do que o Rio de Janeiro. Como capital federal e sede da CBD (a antiga CBF), além de ser o principal centro da imprensa esportiva e vitrine do futebol brasileiro, o Rio monopolizava a seleção nas primeiras décadas de Copa. O ranking evidencia isso, com Vasco, Flamengo, Botafogo, Fluminense, Bangu, São Cristóvão e America acumulando pontos enquanto moldavam as primeiras versões da seleção brasileira.
A Copa de 1930 ainda reflete um futebol em estado primitivo, com poucos jogos e times dispersos, enquanto em 1934 a seleção continuava desorganizada. No entanto, em 1938, começa a se consolidar o eixo Rio-São Paulo, com o Brasil ganhando competitividade internacional e alguns clubes se firmando de maneira mais permanente na seleção.
O Vasco se destaca como o principal deles, especialmente em 1950, quando a equipe se torna quase hegemônica.
A seleção do Maracanazo tinha uma forte representação vascaína: Ademir Menezes, artilheiro da Copa com nove gols, se destaca como o jogador que mais contribui para a pontuação do clube nesse período. Contudo, ele era apenas a face mais visível de uma estrutura muito maior, que incluía Barbosa, Danilo Alvim, Augusto e Friaça, formando uma espinha dorsal que fazia do Vasco não apenas um grande clube brasileiro, mas quase uma representação oficial do futebol nacional.
Vasco era time base da seleção brasileira — Foto: Reprodução de jornal
A ironia histórica mais intrigante desse levantamento é que o trauma de 1950 acabou ofuscando parte da grandeza daquela equipe. A derrota para o Uruguai transformou uma geração histórica em um símbolo de fracasso nacional. O Maracanazo eclipsou a memória do Vasco. Se o Brasil tivesse sido campeão, talvez a base vascaína ocupasse um lugar no imaginário popular semelhante ao que mais tarde seria reservado ao Santos de Pelé ou ao Botafogo de Garrincha.
— Acredito que sim (se equipararia a Santos e Botafogo). Ademir, craque do Vasco, teria terminado a Copa de 1950 como campeão, com nove gols e sete assistências. O Brasil provavelmente jamais teria adotado a camisa amarela, pois a branca poderia ter se tornado mítica. E, de certa forma, o Vasco de 1950 teria sido o Expresso da Vitória, e da vitória do Brasil: a base daquele time seria eternizada junto com o título mundial — opina Paulo Vinícius Coelho, o PVC, jornalista do UOL e da Paramount.
Os números ajudam a reorganizar a memória
Entre 1930 e 1950, o Vasco lidera o ranking histórico das Copas, seguido por Botafogo e Flamengo. Mais do que um dado estatístico, esse resultado contribui para contar a história de um período em que a seleção brasileira buscava entender sua identidade — e alguns clubes funcionaram como laboratórios dessa construção. A identidade cruz-maltina, mesmo com suas raízes portuguesas e popularidade em uma época em que o esporte estava próximo da elite, foi a mais significativa.
Antes do Brasil se tornar tricampeão. Antes da camisa amarela se tornar sinônimo de excelência. Antes de Pelé reescrever a história do futebol mundial, houve um clube que ensinou a seleção brasileira a ocupar esse lugar.
Fonte: O Globo



Juan ‘Pepe’ Schiaffino faz o primeiro da virada uruguaia na final contra o Brasil, no Maracanã — Foto: AFP
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